sexta-feira, 30 de setembro de 2011

To you

Enquanto te vejo a dormir, pergunto-me se será possível. O vento levou consigo os viajantes incómodos, áridos e poeirentos que erodiam o coração. Ao mesmo tempo, como criança que desliza lentamente por trás de nós para nos assustar e corre quando está perto, assim me assolou a essência que teimava em escapar-se pelas minhas mãos soturnas e pouco esperançosas.

Não me resta outra solução que não fitar os teus lábios finos de banda desenhada, os teus olhos de doce lunática, os teus cabelos de revolto castanho, o teu corpo torpe e esguio. Faço-o como se o amanhã os despisse dos adjectivos e os deixasse apenas lábios, olhos, cabelo, ordinários e vulgares. Olho convencido de que a luz não vai nunca voltar a espreitar pela fresta da portada da janela e ranger mais uma vez um sonoro “bom dia”.

Mas vai. Há tanto para fazer lá fora…fora de nós, num mundo sem pausa ou paragem possível. Felizmente, os momentos são efémeros, mas a memória é bastante poderosa. Por causa dela, aqui estou, sozinho e longe, a lembrar-me do quanto te amo.

domingo, 28 de agosto de 2011

As folhas e o vento

Aqui dentro está quente, acolhedor, confortável, como sempre. Lá fora as folhas caiem banalmente, como sempre fizeram, aos poucos consumando a calvície das árvores e a incontinência das nuvens.

Suspiro. Só queria companhia, para não cair sozinho como as folhas amarelo-fora-de-prazo das árvores. Só queria viver o fácil e banal cliché de andar à chuva de mãos dadas com a minha pseudo alma gémea. Pseudo. Isso não existe.

Mas existem tantas folhas, tantas potenciais folhas...
Apenas o vento as pode fazer roçar em mim na queda, deixar os seus cadernos caírem ao chão na esquina do Outono e trazer para a mesa duas chávenas de café e de miragem.

O vento está lá fora e eu estou cá dentro, longe do mundo das probabilidades. Por ora desisti de me tornar escravo desse mundo, dessa corrente de ar pela qual já esperei, impotente.

Agora vejo as folhas viverem, rodopiarem como marionetas do destino cruel. O destino é pai do vento e ensinou-lhe todos os seus truques. Um dia, sei que não vou resistir, sei que me tocará á campainha. Sei que terei de abandonar o "aqui" e tentar outra vez a minha sorte.

Playground love


As mãos tremem com o medo de te ver - não, com medo que me vejas! Os corredores polifónicos parecem mergulhados num lago de indiferença, para ecoar apenas um som. Para ecoar um gesto, um olhar.

O jantar deixa de fazer sentido sem estares ao lado. A colher passeia, girando nos mesmos sítios, com a cadência dos suspiros e da memória de duração infinita que passa no meu ecrã privado.

Corro como se o fogo me pudesse alcançar os pés ou como se o frio me pudesse congelar a alma. Beijo com a violência de quem ama mais do que a vida pode dar, para a seguir fugir com medo do quão longe fui.

Os pés sintonizam-se com os teus, suavemente polindo o chão de madeira, enquanto a tensão da tua cabeça no meu ombro dura pela noite fora e leva-nos para outro chão.

"You're my playground love"



sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Túnel

Tudo o que eu menos queria era ver-te outra vez. Mas apareceste. Pelo brilho alternado dos carrinhos de choque, suspensos longe da gravilha do solo, vi novamente os teus cabelos, passado tanto tempo como da última vez que a água inundou o deserto. Não eram cabelos reais, de seda, pintados no cabeleireiro do bairro; não. Era um holograma habilmente realizado pelas luzes festivas. Vamos fingir que não apareceram pelo tormento do “ter saudades”, pela falta do oxigénio vicioso que me davas quando baixavas as cuecas.

Não te menti. Se no início queria o perfume dos teus cabelos caros ou o segredo baço dos teus olhos vidrados, rapidamente o perfume fugiu e o segredo passou a ser monotonia. A razão do nosso ser passou apenas à mundana travessia do túnel cor de pele, às bocas retorcidas dos gemidos e ao egoísmo dos olhos fechados para o mundo.

Porque apareceram os teus cabelos tanto tempo depois, do nada do céu? Porque quero tudo isso outra vez. Não necessariamente os teus cabelos ou o mesmo túnel, talvez outros, sei que não alimentas esperanças nem eu o faço. Que outro exótico perfume me invada. Estou novamente pronto para isso. Para o túnel todos estamos. Sempre.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Um café parte 2

*

Mentira. O estômago borbulhava, insaciado, talvez também pela conversa despertada em torno de uma estúpida torrada – conversa que lhe pareceu totalmente despropositada, não estivessem os seus cavaleiros da mente ao serviço de outras necessidades.

Era um daqueles dias em que, como nuvem que aparece do nada e teima em desaparecer, fazendo-o ao fim de várias horas de precipitação, as ideias assombravam-no e obrigavam o cérebro a digeri-las, a decompô-las, para que assim a tempestade (qual brain…storming) terminasse de forma pacífica, dentro do possível. Ainda nenhuma dessas sessões havia resultado de forma minimamente duradoura e as nuvens voltavam sempre, ao fim de dias de paz e sossego.

Uma vontade estúpida, irracional, ditou que procurasse aquelas fotos, aqueles nomes e cenários que continuavam a marcar-lhe os dias. Mais do que uma fiel cópia dos acontecimentos, ficaram as memórias triviais que lhe relembravam a solidão; as marcas de guerra, as dúvidas – quando viria aquilo tudo a desvanecer-se de vez?
Tenho uma teoria. Vivemos para acumular cicatrizes, para montar à toa peças de um puzzle cuja imagem final desconhecemos. Naturalmente, apesar dos nossos melhores esforços, de forma alguma elas ficam bem encaixadas. Mesmo quando tentamos compor aqui e ali, há sempre outra peça, subjugada, menosprezada, que sai do sítio ou parte para sempre – e assim partimos nós, um dia, numa escala maior.

Quando olhamos para o gelo plácido do passado, torna-se mais fácil analisar as peças que ficaram por encaixar, o puzzle para sempre incompleto. O sol daqueles dias avizinha-se longínquo, na altura mais importante do que essa rectidão e perfeição do puzzle. Afinal de contas, seremos feitos para beijar a perfeição ou para apertar o calor terreno da vida, aquele que dita a incompletude das peças e o retrato final ambíguo?

E se o puzzle for perfeito, será a imagem nele representada, aquela que as pessoas vêem, igual à que realmente somos? Duvido. A perfeição exige o sacrifício do eu.

*

O Pedro acabou por pedir uma tosta. O seu estômago enviara um ultimato ao cérebro distante, alertando para a sua pouca sensibilidade para dramas pessoais. Mais um pedaço de carvão fazia o seu percurso sinuoso, por entre cadeiras, antes de chegar à mesa.

Um café parte I

Era um daqueles cafés completamente simplórios, perdidos no tempo. Tornara-se o paradeiro habitual do grupo não sei precisar há quanto tempo – meses, vários, cuja noção se foi esfumando em cada dia de passadas sofridas, de um nascer e pôr do sol completamente coloquial e vazio. Abrigado pelas cinzas do tabaco da plebe e pelo fumo nas mesas encardido, mergulhado nas conversas humildes dos moradores da zona - aquelas das quais vive o mundo, mas das quais todos chacotam mordazmente - assim sobrevivera às duras aguilhoadas do tempo. Não havia nenhum sítio mais à mão e assim se tornou tacitamente o centro das conversas, das fugas às casas monótonas.

Estavam lá os 4 do costume. Um rapaz de tez morena e cabelo liso, preto, de franja caída sobre os olhos cor de turquesa, começava a ingerir avidamente a torrada que pedira uns minutos antes, um pouco queimada, e o galão que, do balcão até à mesa redonda de ferro sustentada no chão de mosaicos ao xadrez preto e cinza, entornara uma quantidade considerável.

- “Interessante, em vez de manteiga barraram-na com carvão.” – troçou Rita, com o seu sarcasmo quase tão marcado como as borbulhas presentes na cara. Uma pena, de facto, não fosse ela a perfeita representação do estereótipo da loira de olhos azuis.
- “É, mas parece que ao menos aqui alguém se alimenta.” – zombou Ricardo, com um certo ar sério à mistura que indicava algum fundo de verdade na resposta. E tinha razão, toda a gente sabia da ligeira obsessão de Rita em relação ao seu corpo, construída durante a adolescência e ainda presente, agora que entrava na sua segunda década de existência. Nada de demasiado grave, apenas mais uma coisa para atormentar a vida já de si bastante pacata de um perfeito ió-ió emocional.

- “Vá, não sejas assim.” – principiou a sensatez em pessoa, que era Patrícia – “A esta hora é normal que as coisas já não saiam tão bem, além disso eles estão mais habituados a servir cervejas e amendoins. Ninguém te manda ser uma carta fora do baralho” – sorriu, ligeiramente na galhofa.

- “E tu, não pedes nada, Pedro?” – perguntou Rita, , entretanto propositadamente no campo de visão deste e provocando imediatamente o virar do pescoço dos outros 2 na sua direcção. Pedro não dissera nada de especial desde que entrara no café. Quase parecia estar a acompanhar a conversa como um dedo que acompanha as gotas que escorrem nas janelas, quando chova, sem lhe chegar a tocar ou a compreendê-la devidamente.

- “Hmm, desculpa?” – principiou Pedro, surpreendido com a tirada.

-“Se não vais comer qualquer coisa!” – insistiu a loira.

-“Não, não tenho fome…e também não quero gastar dinheiro.” – retorquiu com um nível de excitação em tudo semelhante ao proporcionado por uma corrida de caracóis. Afinal de contas, é habitual as coisas começarem assim, com falta de apetite.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Ruas

Os olhos não deixavam margem para dúvidas; os passos perdidos na melancolia também não. Richard não escolhia o caminho que percorria cegamente - as suas pernas é que, de alguma forma, eram conduzidas pela força do alcatrão rodoviário degradado.

Era de noite, típico cliché para histórias dramáticas de indivíduos afogados numa pequena bacia de problemas (não necessariamente um mar deles). Não, isto era sério, tão sério que nem a dor latejante nos pés era capaz de chamar a sua atenção para a distância que já percorrera.

As várias picadas que levara não eram capazes de o matar na hora, mas aos poucos o veneno começou a apoderar-se da vida - não do corpo. Menos uma pessoa, mais uma pessoa nas nossas vidas. Que diferença assim tão grande poderia fazer, afinal?

Virou para uma pequena ruela, à direita, em tudo similar à que se afigurava no lado oposto. Perguntou-se porquê aquela, aleatoriamente, e as rodas dentadas do raciocínio encaixaram na perfeição e começaram a rodar: também com as pessoas é o acaso que decide e a ilusão que nos mantém na rua escolhida. A ilusão é o apagar dos candeeiros da cidade, que torna todas as ruas turvas e escuras.

Podemos escolher a cor, a quantidade, o modo de administração e até a legalidade, mas no fim de contas, qualquer relação é uma droga - deixando-nos agarrados às veias do amor e do hábito, assim que o fornecimento acaba. Leva-nos ao fim, não necessariamente da nossa presença móvel na terra mas do nosso fim enquanto "eu" e "tu".

Se assim é, porque não escolhemos criteriosamente as pessoas que tanto nos moldam como se de plasticina fôssemos feitos?

Embargado pela conclusão, Richard virou à direita após a grande avenida da cidade. Sem razão aparente.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Palavras.

As palavras mentem. Com as palavras que escrevo, não posso senão fazer uma fotocópia, no preto e branco distante do passado, de dores que floresceram no meu peito ou de prantos que nunca chegaram a o ser.

As palavras são como folhas mortas no chão - perdem a vida mal caiem da árvore do agora aos pés das raízes gastas e calejadas da rotina. Caiem na valeta do esquecimento ou boiam dispersas no charco inquinado do afastamento e da azáfama da solidão.

As palavras nunca poderão matar como um punhal em cascata de sangue num peito humano, mas o seu efeito é mais prolongado. São como pequenas picadas, dia após dia, desferidas precisamente no mesmo buraco que se vai escavando na alma. É a tua arma preferida, qual serial killer em que a vítima não chora sangue mas esvai-se em lágrimas. As palavras não mentem. Apenas apaziguam o teu ódio, o teu desnorte.

sábado, 23 de abril de 2011

Rosa...com espinhos. Updated version.

Eu, rosa de tristes espinhos, enferma estou de tão fútil elogio e agrado. De que vale um fugaz aceno de aprovação, que se consome tão brusco como tarde de sol em Londres? De nada! De um nada infinitamente 0, de um enorme e cheio vazio.

Só queria que alguém fosse mais longe – ousasse pelo menos imaginar o que fica para trás das muralhas. Tudo o que queria era sentir corajosa mão nos meus espinhos, cravada até aos limites da loucura – pele rasgada e sangue morno a brotar, invisivelmente tingindo o meu vestido de pétalas rubras. Não, não seria a morte, antes a prova de honra necessária para que alguma brava existência faça o seu caminho até ao que dentro de mim há, envolto pelo vestido de gala vermelho. Que a dor não o travasse, não, porque valiosa é tão pungente defesa exterior.

Não o conhece, pois, ninguém, ao segredo (à vida!) que em mim protege. Nem cuidadosa jardineira que de mim fingiu cuidar durante dias e noites, mais as noites do que os dias. Para essa, fui só rosa sem espinhos, ingénua e jovem – temerosa, frágil, quebradiça! Terrível excepção cometera eu e os meus segredos ficaram assim visíveis para tão pouco meritória criatura. Pois assim espinhos em mim surgiram, ferozes e bicudos, furando aqui e ali o lindo vestido – para afastar os que com o negro se medram e os que vendo o vermelho não se deixam romanticamente cegar.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Whatever

Nunca sei como começar. Nenhuma maneira parece suficientemente genuína, verdadeira. Nenhuma nuvem que pretendo escrever fica borratada nos mesmos tons de significação e nenhuma lua consegue permanecer tão orgulhosa na sua solidão como eu a sinto.

As húmidas granadas, enviadas de forma sequencial em viagem descendente, impedem cada fracção de segundo de clareza e de transformação – um verdadeiro desastre, visto que fazê-lo e transportá-lo para este plano real e caótico sempre foi a minha maneira de sobreviver. Basicamente, porque o cheiro nauseabundo, o fumo negro e espesso, as labaredas altíssimas num degradé de cor-de-laranja são as únicas coisas que quero inspirar bem fundo e manter cá dentro, para me mostrarem que continuo vivo. De forma medíocre e consumida, mas vivo. São as únicas que, quando as perco de vista, me fazem estacar num cenário de luzes que se apagam e deixam o espectáculo passivo da tv, onde tudo se passa sem que façamos parte da ficha técnica, num estado de pausa semelhante a um coma da vida.

As utopias do fantástico nunca me chegaram a cumprimentar com grande reverência irónica e as lúdicas ilusões dos verdes anos nunca me possuíram verdadeiramente a alma, agora completamente cicatrizada com pontos dados pelo tempo. 15 pontos na alma, como o nome do filme. Muitas mais são as vezes que me pergunto porque nada me consola como a um bebé envolto no seu berço de carinho e protecção; como a duas pessoas ligadas por uma hera quebradiça e podre, prestes a romper a qualquer momento – mas, ainda assim, capaz de as unir de forma efémera.

As respostas não surgem. A chuva continua a escorregar pelo ar conspurcado, silenciosa – mas capaz de dizer mais do que tudo o que já li e tudo o que já escrevi. Se calhar por existir enquanto chuva e não enquanto objecto preso a dogmas e expectativas infundadas, a devaneios de terceiros.

A chuva não pode ser controlada, mas grato seria por me submeter às suas vontades partindo de um quadro branco, por pintar, o resultado da inércia naturalista e não da reflexão. Oxalá pudesse limitar-me a senti-la, como rainha de agulhas frias, exorcista das peças do puzzle que não encaixam e que teimam em chocar umas com as outras neste tabuleiro de sangue e sentidos.