terça-feira, 19 de abril de 2011

Whatever

Nunca sei como começar. Nenhuma maneira parece suficientemente genuína, verdadeira. Nenhuma nuvem que pretendo escrever fica borratada nos mesmos tons de significação e nenhuma lua consegue permanecer tão orgulhosa na sua solidão como eu a sinto.

As húmidas granadas, enviadas de forma sequencial em viagem descendente, impedem cada fracção de segundo de clareza e de transformação – um verdadeiro desastre, visto que fazê-lo e transportá-lo para este plano real e caótico sempre foi a minha maneira de sobreviver. Basicamente, porque o cheiro nauseabundo, o fumo negro e espesso, as labaredas altíssimas num degradé de cor-de-laranja são as únicas coisas que quero inspirar bem fundo e manter cá dentro, para me mostrarem que continuo vivo. De forma medíocre e consumida, mas vivo. São as únicas que, quando as perco de vista, me fazem estacar num cenário de luzes que se apagam e deixam o espectáculo passivo da tv, onde tudo se passa sem que façamos parte da ficha técnica, num estado de pausa semelhante a um coma da vida.

As utopias do fantástico nunca me chegaram a cumprimentar com grande reverência irónica e as lúdicas ilusões dos verdes anos nunca me possuíram verdadeiramente a alma, agora completamente cicatrizada com pontos dados pelo tempo. 15 pontos na alma, como o nome do filme. Muitas mais são as vezes que me pergunto porque nada me consola como a um bebé envolto no seu berço de carinho e protecção; como a duas pessoas ligadas por uma hera quebradiça e podre, prestes a romper a qualquer momento – mas, ainda assim, capaz de as unir de forma efémera.

As respostas não surgem. A chuva continua a escorregar pelo ar conspurcado, silenciosa – mas capaz de dizer mais do que tudo o que já li e tudo o que já escrevi. Se calhar por existir enquanto chuva e não enquanto objecto preso a dogmas e expectativas infundadas, a devaneios de terceiros.

A chuva não pode ser controlada, mas grato seria por me submeter às suas vontades partindo de um quadro branco, por pintar, o resultado da inércia naturalista e não da reflexão. Oxalá pudesse limitar-me a senti-la, como rainha de agulhas frias, exorcista das peças do puzzle que não encaixam e que teimam em chocar umas com as outras neste tabuleiro de sangue e sentidos.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Mais longe

E assim rebentei de vez com o chão periclitante que pisava. Já muitas fendas o povoavam e anteviam tal desfecho óbvio.Não estava lá o ouro com o qual vou sonhando; o ouro que, nos meus momentos de sede sensorial, dou por mim a procurar a qualquer custo.

Bem sei que é efémero, que não é ele que importa mas sim a descoberta; bem sei que, uma vez encontrado, deixa de ter todo e qualquer valor. A próxima exploração planeia-se sempre de dimensões épicas e avassaladoras, capazes de suplantar as (des)ilusões anteriores.

A descoberta de novos trilhos funde-se simbioticamente com a auto-destruição provável do meu corpo limitado e insatisfeito, cuja acção frenética o meu cérebro latejante pretende imolar de forma eterna.

Antes acontecesse tal alívio. Novamente, como ciclo vicioso, uma vez descoberto o tesouro este reduz-se à importância de um ar - que respiramos há demasiado tempo para o notarmos - ou de um contacto físico ríspido, mecânico, rudimentarmente carnal.

Ainda não percebi se é o nevoeiro que me impede de ver outras ilhas preciosas ou se, pura e simplesmente, não há nada mais para penetrar. Se calhar é só uma protecção - não é por acaso que me sinto sujo e usado.

O pior...é que um dia o tempo esgota-se e o infinito fica sempre lá, nesse mesmo sítio que no fundo sabemos não poder tocar - nenhum de nós. Almas resignadas, este é o vosso mundo, não o meu.



"Foder é perto de te amar, se eu não ficar perto"

domingo, 27 de fevereiro de 2011

...

Porque a praça dos sentidos e a revista do passado há-de sempre trazer de volta o que de pior há em nós, como um beco sem saída, cujos limites aprisionam a nossa fraqueza humana de querer mais e não o poder atingir.

Porque a morte não é mais do que um remendo, um mal menor para essa falha incrível que faz de nós tão pouco como a vida e tanto como isto que escrevo.

Mas e se houver uma pequena luz? Fingimos vê-la, como todos os outros. Fingimos que o nosso amo não nos tem como escravos, fingimos não haver mais nenhum caminho. E não há mesmo...

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Infinito

O meu único vício é não ter vício nenhum. A minha única existência é, paradoxalmente, a minha morte, lenta e invisível para os outros. Lenta porque não tenho como evitar o tempo que corre em direcção a mim, invisível porque os olhos só vêem as cicatrizes do corpo, não o suplício delirante e agudo da alma.

Caminhar acompanhado é a mesma coisa que caminhar sozinho. Beijar os teus lábios carnudos é a mesma coisa que ouvir sendo surdo, caminhar sem pernas. Ainda se tivesse um rumo definido...poderia viajar, mesmo sem elas.

A minha única oração é o silêncio do desespero, o fim da linha e a saída eminente do comboio que devia seguir para o infinito.

Maldito infinito. É para ele que as pessoas vivem, mesmo quando dizem aceitar a morte - porque mentem a si próprias. É nele que as pessoas se encontram, quando julgam que se irão perder. É nele que deixam de ser criaturas imperfeitas e incompletas - antes o nada do que o inacabado.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Ritual

Estou doente. Já não consigo ver com clareza as pétalas que vão lançando à minha passagem, arrancadas de forma condenável para me servir, pés ingratos que se esfregam ao longo da calçada do tempo.

Pior do que isso: já só vejo as facas ferrugentas que me apontam. Raios, ferrugentas? Consegui que nutrissem assim tanto ódio por mim - durante tanto tempo? Não, nunca fui importante a esse ponto.

Então, como explicar isto? Não é um mero acaso: todas as noites, sinto a ferida a ser aberta lentamente, com laivos de malvadez ritual. Todas as noites, sinto o sangue a verter - ao princípio com gritos de aguda desorientação, agora resignadamente silenciosos - já não vale a pena.

Abandona-me em cada vez maior quantidade...e enquanto não mergulho nos domínios privados do repouso. (afinal de contas, se acontecesse enquanto durmo, sinal seria de que o meu templo sagrado havia sido profanado e não se iria esfumar o corpo, antes a mente).

É tudo uma questão de tempo, sempre o soube. Talvez até já tenha aguentado mais do que merecia. Devaneios filosóficos não vão fazer nada por mim agora. Céus, se tivesse uma mão estendida para mim...mas não, não poderia ousar dividir com ela a dor, ainda assim. Que as luzes se apaguem - mas só para mim.

Será? Resta a dúvida - até que ponto irá o egoísmo?

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Texto expositivo...

Lembro-me como se fosse hoje. Comparando ao futuro longínquo da velhice caduca, de bengala imponente de madeira e crescente desejo de auto-aniquilação, se calhar foi mesmo hoje.

Tudo começou com um filme que ambos quisemos partilhar. Sabíamos que, no fim, o feitiço seria quebrado e aqueles breves segundos em que nos cruzámos seriam levados pela tempestade caótica que às vezes assola esta terra.

Não fomos forçados pelo ostensivo relógio do portátil, nem tão pouco pelos tiros sangrentos das imagens que dançavam para os nossos olhos. Tudo se desenhou por pura inspiração e capricho divino, em tudo similar à fracção de segundo de génio do artista, quando sabe exactamente que rumo dar à sua obra.

Um sopro que só eles entenderam levou os nossos dedos ingénuos a aproximarem-se lentamente, saboreando o toque efémero de tão pequena porção de alma; a razão congelou por momentos - oh, se assim tivesse ficado para sempre!

Enquanto isso, os nossos corpos descreviam movimentos de medo e de atrevimento, num impasse que não conseguíamos resolver. Fomos marionetas dos sentidos, controlados por cordas de desejo e calor. Os nossos lábios procuraram-se no escuro, sem saberem muito bem porquê. Encaixaram de forma humanamente perfeita e, naquele momento, tudo fez sentido - até a escuridão.

Os disparos sangrentos deixaram de se ouvir. Deram lugar ao ruído maquinal da ilusão e à procura de um novo significado ainda mais profundo, de um ponto de chegada ainda mais longínquo, envolvido pela protecção morna da manta do sofá.



(desta vez, a única relação da música com o texto é a pureza e beleza, para além da forma lenta como vai crescendo...no tempo e em nós)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Forget

A vida não é tão difícil de explicar como eu pensava. Sou uma mera linha recta, imutável e inabalável. A maior parte das outras linhas sabe o risco que corre, nunca se aproximando de tão anormal excepção.

Há, no entanto, uma ou outra que arrisca tocar com todas as suas forças esta linha. Todas elas vão sendo impelidas para bem longe, nunca chegando a fundir-se uma vez que seja comigo.

Porém, há uma recente excepção que levanta questões e abala alicerces. Talvez esta linha já não esteja tão recta como eu julgava - se calhar isso não é uma coisa má. Se calhar, a pouco e pouco, vou absorvendo, num processo simbiótico, outra linha em mim. Se calhar, estou também a dar uma parte de mim, parte essa que nunca mais vou conhecer ou afagar com a ponta dos meus dedos.

O processo dói. Às vezes, dá vontade de acabar directamente com a minha linha - e, indirectamente, com a tua. Mas sempre gostei de causar o menor sofrimento possível, visto que o mal é meu. Vou deixar que a tua linha se desembarace pacificamente da minha e siga o seu caminho nesta folha de papel.

"They'll give us something,
They'll give us so much to forget"

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Fora não, acima!

Estou fora deste mundo. Deslizo, leve, livre e lento, acima das nuvens delicadas e rugosas; acima das rodas que rangem e rodam, em conflito contínuo umas com as outras.

Nada me perturba. Nem mesmo o facto de não saber se voltarei a encontrar o caminho para tamanho voo, nem sequer o facto de não saber quanto tempo me conseguirei aguentar até que me falte o fôlego - até que as asas cedam fatalmente ao marasmo da multidão.

domingo, 30 de janeiro de 2011

O daltónico e as cores

Não sei escrever. O papel que uso fica colorido, mas nunca com as cores que quero. É como se o arco-íris apenas me emprestasse as menos valiosas. A caneta, a dada altura, teima em afrouxar e deixar de brotar a cópia de emoções que lhe peço e sempre pedi - por favor.

As correntes iludem-me e empurram-me sempre para a mesma zona de corais fáceis e banais que toda a gente conhece, como se não existisse mais nada para ser visto. O mundo transforma-se numa pequena bola cujos recantos me fartam, me enchem de tédio, me fazem sentir incompleto.

Recuso-me a acreditar que a adrenalina da novidade chegou ao fim. Tem de haver algo mais imerso nas minhas marés - tem de haver algo mais para saír como truque de magia pelo bico ordinário da caneta. Se assim não for, como hei-de respirar? O ar não me chega, monótona e estável mistura de gases.

Ainda espero que a caneta se aventure noutras correntes, não sei se por experiência se por acaso. Não tenho medo de me perder quando ela colocar em risco os meus passos - o meu corpo vale menos do que o perigo. A única coisa de valor são as cores com que pude pintar a minha alma.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Manchas

Manchas. Escuras, claras, grandes, pequenas. Cor psicológica, talvez? Representação mental? Sem dúvida. São invisíveis, mas conseguimos senti-las, ainda frescas.

Podemos continuar a escondê-las, a guardá-las seguras do mundo, com medo que contaminem todos os outros.

Enquanto isso, elas criam raízes mesquinhas nos nossos corpos fracos, fazem deles marionetas de madeira rachada e podre. As fragilidades fazem-nos caír em slow motion no alcatrão, prontos a ser atropelados violentamente por quem mais anda na estrada.

Sim, a cura existe. Não desperdiçar as munições contadas a fazer rolar pelo chão faces redondas e quadradas - brancas mas não da base, vermelhas mas não do batom. Cruel fim, o dessas faces. Só queriam ajudar...e nós só as quisemos proteger, bem sei.

Um dia descobrimos que é tarde. Descobrimos que abraçar um morto é o mesmo que abraçar um desconhecido - nenhum deles está lá para cicatrizar as feridas e secar as manchas com o seu casaco tépido e fofo.