sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Guarda-chuva
Tenho um guarda-chuva. Desses baratos, dos chineses, com as varetas tortas e o tecido furado.
Foi tudo o que me deram para me proteger das tempestades. Dos trovões que me perfuram o peito e deixam aquela sensação estranha de vazio, de revolta.
Um simples guarda chuva que abana, à beira do colapso, à menor insinuação do vento.
Os remendos não servem de nada. A cada dia que passa, enferrujam as varas, frágeis como paus secos; aparecem novos buracos no tecido.
O meu guarda chuva é mágico. Deixa entrar a chuva, mas não deixa que o sol ilumine a minha face pálida. O meu guarda chuva é tão grande que não deixa que ninguém caminhe ao meu lado, ao longo dos passeios intermináveis. O meu guarda-chuva é a minha única companhia.
E se eu não precisar dele para nada? E se eu precisar de ficar ensopado até aos ossos?
Odeio-o. Mas é tão difícil dizer adeus ao frágil guarda-chuva dos chineses...
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Obstáculo
Empurra-me a força da aragem
Atira-me areia para a vista
Que impede a minha passagem
Por mais que eu insista
Não deixa que me perca
Que siga a fragância do perigo
Meu único e fiel abrigo!
Faz de mim duna de areia
Fragmentos de uma vida
Que breve serão arrastados
Por água de maré cheia!
Não consigo estender o braço
Para me salvares do cansaço
Das viagens nos escombros
Das saudades do teu regaço
Será que chegou o adeus?
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Sofá dos sonhos
Rodeiam-me paredes de cansaço, sujas e riscadas do tempo que por elas passou. 10 anos, 10 longos anos que passaram rápido demais. O ar denso parece arrastar as tristezas aprisionadas na tinta branca envelhecida.
O sofá puxa-me para si, com a força de milhões de braços de ferro, como sempre soube fazer. Sabe melhor que ninguém que tudo o que quero é deixar-me voar baixinho, aos comandos do líquido brilhante e escuro que brota irregularmente da caneta. Apenas quero imaginar-me no meio de nuvens redondas, mais genuínas e bonitas do que alguma vez foi a massa cinzenta que polui os céus desta cidade.
Mas a minha fiel companheira de viagem começa a ficar gasta. A única que me pôde manter acordado, ainda que adormecido. A única que me pôde mostrar a luz, embora efémera -maldita maldição! Não a caneta, apenas a minha alma desobediente, que sempre me levou para becos distantes, perigosos, perfeitos na sua solidão.
À medida que a tinta traça curvas determinadas e rectas de rabiscos, a ilusão vai desaparecendo. Lentamente, trazendo a dor de um coma profundo.
Nunca acreditei que a minha vida passava pelos teus lábios secos e finos. Não quis crer que o meu mundo se reflectia nos teus olhos semi-cerrados. Evitei o abraço da tua pele vulgar, dos teus cabelos revoltos. Perdi desesperadamente a rotina de te ter, o conforto do meu espírito, outrora quente e acolhedor.
Deixei-me iludir pela esferográfica. Preferi perder-me na perfeição do imaginário.
10 minutos. Uma luz forte ilumina a minha face, por trás do sofá. Afinal a massa cinzenta sempre viveu somente em mim. Sempre escondeu o verdadeiro sol, a verdadeira razão destes passos que maquinalmente vou seguindo. Atraiçoou-me: levou-me para um círculo vicioso, sem saída possível. Uma estrada que me obriga a voltar regularmente, fazendo-me sair de cada viagem cada vez mais fraco.
10 segundos. Agora é tarde. O que mais dizer? Em breve vou ter-te a meu lado. Não por um bocadinho, mas para sempre. Não em sonhos, mas na morte. Sinto a minha alma a partir, mas não como sempre fez. Desta feita é diferente.
Que sofá tão confortável.
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Fases
No que me queres tornar, se o meu eu assim se esfuma - como vaga e doce espuma?
Porquê o mesmo erro, se o tornado há-de sempre voltar para destruír a minha paz temporária?
Porque o atiças e o tornas cada vez mais poderoso? Porque pões à prova as telhas gastas da minha casa?
Não seria o teu papel proteger-me, como uma andorinha defende o seu ninho religiosamente? Não me devias aconchegar o ego em vez de fazeres de mim um rato indefeso, perdido num esgoto sombrio?
Que utopia, que sonho tão maravilhoso que até hoje sonhei. Até hoje. Até quando vais repetir o vício - tornar o pesadelo em sonho efémero? Até quando me vou deixar iludir pelo medo que não quero sentir?
domingo, 1 de agosto de 2010
Distância
Perguntas-me o que é a distância
São os metros, são os passos
A que estou dos teus abraços!
É a ânsia de conhecer
O final da história a meio
É o medo de te perder,
Ilusão que até mim veio!
São os passeios junto ao rio
Que me acalmam e preenchem
Eterno em mim vazio!
E as dúvidas que abordam
A minha alma inquieta
Sempre que se repete o ciclo
E partes para parte incerta!
São os vinte e três segundos
Em que da tua luz me despeço.
São os becos nos quais tropeço!
Mas sei que o teu regresso
É mais do que vão desejo
Anseio que sonho e almejo
Prova que vês em mim
Tanto quanto em ti vejo!
Assim, aguento as águas
Que me trazem nas ondas rebeldes
Sonhos, saudades e mágoas!
sábado, 24 de julho de 2010
Falta
Casa sem esperança
Para gente que fecha as janelas
À alma da tua lembrança
Luar sinistro e escuro
Para quem não se decidiu
Entre o sofrimento de ser
E a vida por trás do escudo!
Para quem, insano, arriscou
Ficar com o presente vazio
Sem a glória que antes sonhou
Avenida do centro deserta
Em plena luz do dia
Cheia de gente incerta
Em invisível correria
Café sem mexericos
Jornal, bilhar ou matrecos
Objectos desconhecidos
Não te importa a falta
Do que nunca conheceste
A chama que em nós exalta!
Mentes com o sorriso amarelo
Que esconde o óbvio engano
De não querer aquilo que é belo
Por considerá-lo profano
Preferes não viver a loucura
De ver em mim o momento
Da tua doença a cura!
Do sinónimo de dor
Foges, medrosa existência
Da tua perigosa demência
Vazio deserto de amor
domingo, 20 de junho de 2010
Passado
Havia uma avenida
Banhada pela correria
Do sol, não das gentes
Nem de um sopro de alegria
Havia uma esplanada
De conversas indiscretas
Bebericavam ali segredos
Boatos, cusquices incertas
Havia um jardim sossegado
De sombras frescas em paz
Amores cínicos se confundiam
Nas árvores e arbustos, por trás
Promessas vãs de esperança
No tempo que não iria embora
No futuro mudaria a dança
Para uma de saudade que chora
Histórias de um sítio vazio
Vazio parecido com nada
Perdido para quem é demais
Achado pela manada
Deu-me o tempo o que preciso
Para perseguir a névoa dourada
Vaga, que se aproxima num riso
Minha paixão e tormenta amada
Banhada pela correria
Do sol, não das gentes
Nem de um sopro de alegria
Havia uma esplanada
De conversas indiscretas
Bebericavam ali segredos
Boatos, cusquices incertas
Havia um jardim sossegado
De sombras frescas em paz
Amores cínicos se confundiam
Nas árvores e arbustos, por trás
Promessas vãs de esperança
No tempo que não iria embora
No futuro mudaria a dança
Para uma de saudade que chora
Histórias de um sítio vazio
Vazio parecido com nada
Perdido para quem é demais
Achado pela manada
Deu-me o tempo o que preciso
Para perseguir a névoa dourada
Vaga, que se aproxima num riso
Minha paixão e tormenta amada
XX-YY
Sempre soube, sempre vi
Que tomada foi a loucura
Tudo o que por ti senti
Turbilhão que em mim perdura
Desde aquele bar intimista
Olhares cruzados letais
Sentimento alarmista
De géneros semelhantes, iguais
Atracção abominável
Diz o povo preconceituoso
De ignorância admirável
De palavreado cavernoso
As mãos entrelaçadas,
Os lábios unidos,
As maldições que foram rogadas…
O toque da tua pele,
Pele como qualquer ser
O perfume, odor a mel
Já não posso sem ele viver!
Sucumbam, deixem-me ser,
Massas intolerantes e dementes
Que não me sei entregar
A elas, tão atraentes
Ninfas perturbadoras e belas
Hope
Não sei há quantos dias
Não sei há quantos luares
Trouxeram aquelas maresias
Meu corpo para estes vagares
Turvas as águas, outrora
Sujas de sangue e lama
Anos antes da aurora
Me deixaram tempos de infâmia
Feitiços de bruxas lendárias
Lacunas de um ser imperfeito
Submerso em dores imaginárias
Perdido no seu próprio leito
Tardou a onda de espuma
Que me traria ansioso alento
Adormecida ficou, na bruma
À espreita daquele momento
Chegou, por fim, sem aviso
Quem vem libertar este nó
Que faz de mim tão narciso
Que me sufoca e me deixa só
Só esse possui a chave
Que o abre, baú velho e baço
Só esse comanda a nave
Na qual iremos para o espaço
Enfim no meio das estrelas
Mais que metade me tenho
Névoas escuras, porquê vê-las?
Ficaram onde me estranho
Esfumam-se, vagas, distantes
Como páginas de diário antigo
Perdem-se no passado, latejantes
Fragmentos de tão vil inimigo
Não sei há quantos luares
Trouxeram aquelas maresias
Meu corpo para estes vagares
Turvas as águas, outrora
Sujas de sangue e lama
Anos antes da aurora
Me deixaram tempos de infâmia
Feitiços de bruxas lendárias
Lacunas de um ser imperfeito
Submerso em dores imaginárias
Perdido no seu próprio leito
Tardou a onda de espuma
Que me traria ansioso alento
Adormecida ficou, na bruma
À espreita daquele momento
Chegou, por fim, sem aviso
Quem vem libertar este nó
Que faz de mim tão narciso
Que me sufoca e me deixa só
Só esse possui a chave
Que o abre, baú velho e baço
Só esse comanda a nave
Na qual iremos para o espaço
Enfim no meio das estrelas
Mais que metade me tenho
Névoas escuras, porquê vê-las?
Ficaram onde me estranho
Esfumam-se, vagas, distantes
Como páginas de diário antigo
Perdem-se no passado, latejantes
Fragmentos de tão vil inimigo
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Quem?
Quem eu sou?
Não me encontro, não conheço
Para onde olho, para onde vou
Não sei porquê, porque mereço
Este olhar que a mim fitou
Quem tu vês?
Um riacho turvo e fraco
Como a palidez da minha tez
Amor meu feito num caco
O que foi, o que o fez?
Quem me agarra?
Se ousa chegar perto
E não acha o que contava
Não é justo, não é certo
Por isso me refugiava
Perdido nas malhas dos céus
Sombrio nas luzes difusas
À espera, como os outros réus
Das suas penas obtusas
Não sei se deles, não sei se minha
A culpa desta vida perdida
Desde que nasci, decerto tinha
A minha fatal sentença lida
Não me encontro, não conheço
Para onde olho, para onde vou
Não sei porquê, porque mereço
Este olhar que a mim fitou
Quem tu vês?
Um riacho turvo e fraco
Como a palidez da minha tez
Amor meu feito num caco
O que foi, o que o fez?
Quem me agarra?
Se ousa chegar perto
E não acha o que contava
Não é justo, não é certo
Por isso me refugiava
Perdido nas malhas dos céus
Sombrio nas luzes difusas
À espera, como os outros réus
Das suas penas obtusas
Não sei se deles, não sei se minha
A culpa desta vida perdida
Desde que nasci, decerto tinha
A minha fatal sentença lida
Subscrever:
Mensagens (Atom)