O meu único vício é não ter vício nenhum. A minha única existência é, paradoxalmente, a minha morte, lenta e invisível para os outros. Lenta porque não tenho como evitar o tempo que corre em direcção a mim, invisível porque os olhos só vêem as cicatrizes do corpo, não o suplício delirante e agudo da alma.
Caminhar acompanhado é a mesma coisa que caminhar sozinho. Beijar os teus lábios carnudos é a mesma coisa que ouvir sendo surdo, caminhar sem pernas. Ainda se tivesse um rumo definido...poderia viajar, mesmo sem elas.
A minha única oração é o silêncio do desespero, o fim da linha e a saída eminente do comboio que devia seguir para o infinito.
Maldito infinito. É para ele que as pessoas vivem, mesmo quando dizem aceitar a morte - porque mentem a si próprias. É nele que as pessoas se encontram, quando julgam que se irão perder. É nele que deixam de ser criaturas imperfeitas e incompletas - antes o nada do que o inacabado.
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Ritual
Estou doente. Já não consigo ver com clareza as pétalas que vão lançando à minha passagem, arrancadas de forma condenável para me servir, pés ingratos que se esfregam ao longo da calçada do tempo.
Pior do que isso: já só vejo as facas ferrugentas que me apontam. Raios, ferrugentas? Consegui que nutrissem assim tanto ódio por mim - durante tanto tempo? Não, nunca fui importante a esse ponto.
Então, como explicar isto? Não é um mero acaso: todas as noites, sinto a ferida a ser aberta lentamente, com laivos de malvadez ritual. Todas as noites, sinto o sangue a verter - ao princípio com gritos de aguda desorientação, agora resignadamente silenciosos - já não vale a pena.
Abandona-me em cada vez maior quantidade...e enquanto não mergulho nos domínios privados do repouso. (afinal de contas, se acontecesse enquanto durmo, sinal seria de que o meu templo sagrado havia sido profanado e não se iria esfumar o corpo, antes a mente).
É tudo uma questão de tempo, sempre o soube. Talvez até já tenha aguentado mais do que merecia. Devaneios filosóficos não vão fazer nada por mim agora. Céus, se tivesse uma mão estendida para mim...mas não, não poderia ousar dividir com ela a dor, ainda assim. Que as luzes se apaguem - mas só para mim.
Será? Resta a dúvida - até que ponto irá o egoísmo?
Pior do que isso: já só vejo as facas ferrugentas que me apontam. Raios, ferrugentas? Consegui que nutrissem assim tanto ódio por mim - durante tanto tempo? Não, nunca fui importante a esse ponto.
Então, como explicar isto? Não é um mero acaso: todas as noites, sinto a ferida a ser aberta lentamente, com laivos de malvadez ritual. Todas as noites, sinto o sangue a verter - ao princípio com gritos de aguda desorientação, agora resignadamente silenciosos - já não vale a pena.
Abandona-me em cada vez maior quantidade...e enquanto não mergulho nos domínios privados do repouso. (afinal de contas, se acontecesse enquanto durmo, sinal seria de que o meu templo sagrado havia sido profanado e não se iria esfumar o corpo, antes a mente).
É tudo uma questão de tempo, sempre o soube. Talvez até já tenha aguentado mais do que merecia. Devaneios filosóficos não vão fazer nada por mim agora. Céus, se tivesse uma mão estendida para mim...mas não, não poderia ousar dividir com ela a dor, ainda assim. Que as luzes se apaguem - mas só para mim.
Será? Resta a dúvida - até que ponto irá o egoísmo?
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Texto expositivo...
Lembro-me como se fosse hoje. Comparando ao futuro longínquo da velhice caduca, de bengala imponente de madeira e crescente desejo de auto-aniquilação, se calhar foi mesmo hoje.
Tudo começou com um filme que ambos quisemos partilhar. Sabíamos que, no fim, o feitiço seria quebrado e aqueles breves segundos em que nos cruzámos seriam levados pela tempestade caótica que às vezes assola esta terra.
Não fomos forçados pelo ostensivo relógio do portátil, nem tão pouco pelos tiros sangrentos das imagens que dançavam para os nossos olhos. Tudo se desenhou por pura inspiração e capricho divino, em tudo similar à fracção de segundo de génio do artista, quando sabe exactamente que rumo dar à sua obra.
Um sopro que só eles entenderam levou os nossos dedos ingénuos a aproximarem-se lentamente, saboreando o toque efémero de tão pequena porção de alma; a razão congelou por momentos - oh, se assim tivesse ficado para sempre!
Enquanto isso, os nossos corpos descreviam movimentos de medo e de atrevimento, num impasse que não conseguíamos resolver. Fomos marionetas dos sentidos, controlados por cordas de desejo e calor. Os nossos lábios procuraram-se no escuro, sem saberem muito bem porquê. Encaixaram de forma humanamente perfeita e, naquele momento, tudo fez sentido - até a escuridão.
Os disparos sangrentos deixaram de se ouvir. Deram lugar ao ruído maquinal da ilusão e à procura de um novo significado ainda mais profundo, de um ponto de chegada ainda mais longínquo, envolvido pela protecção morna da manta do sofá.
(desta vez, a única relação da música com o texto é a pureza e beleza, para além da forma lenta como vai crescendo...no tempo e em nós)
Tudo começou com um filme que ambos quisemos partilhar. Sabíamos que, no fim, o feitiço seria quebrado e aqueles breves segundos em que nos cruzámos seriam levados pela tempestade caótica que às vezes assola esta terra.
Não fomos forçados pelo ostensivo relógio do portátil, nem tão pouco pelos tiros sangrentos das imagens que dançavam para os nossos olhos. Tudo se desenhou por pura inspiração e capricho divino, em tudo similar à fracção de segundo de génio do artista, quando sabe exactamente que rumo dar à sua obra.
Um sopro que só eles entenderam levou os nossos dedos ingénuos a aproximarem-se lentamente, saboreando o toque efémero de tão pequena porção de alma; a razão congelou por momentos - oh, se assim tivesse ficado para sempre!
Enquanto isso, os nossos corpos descreviam movimentos de medo e de atrevimento, num impasse que não conseguíamos resolver. Fomos marionetas dos sentidos, controlados por cordas de desejo e calor. Os nossos lábios procuraram-se no escuro, sem saberem muito bem porquê. Encaixaram de forma humanamente perfeita e, naquele momento, tudo fez sentido - até a escuridão.
Os disparos sangrentos deixaram de se ouvir. Deram lugar ao ruído maquinal da ilusão e à procura de um novo significado ainda mais profundo, de um ponto de chegada ainda mais longínquo, envolvido pela protecção morna da manta do sofá.
(desta vez, a única relação da música com o texto é a pureza e beleza, para além da forma lenta como vai crescendo...no tempo e em nós)
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Forget
A vida não é tão difícil de explicar como eu pensava. Sou uma mera linha recta, imutável e inabalável. A maior parte das outras linhas sabe o risco que corre, nunca se aproximando de tão anormal excepção.
Há, no entanto, uma ou outra que arrisca tocar com todas as suas forças esta linha. Todas elas vão sendo impelidas para bem longe, nunca chegando a fundir-se uma vez que seja comigo.
Porém, há uma recente excepção que levanta questões e abala alicerces. Talvez esta linha já não esteja tão recta como eu julgava - se calhar isso não é uma coisa má. Se calhar, a pouco e pouco, vou absorvendo, num processo simbiótico, outra linha em mim. Se calhar, estou também a dar uma parte de mim, parte essa que nunca mais vou conhecer ou afagar com a ponta dos meus dedos.
O processo dói. Às vezes, dá vontade de acabar directamente com a minha linha - e, indirectamente, com a tua. Mas sempre gostei de causar o menor sofrimento possível, visto que o mal é meu. Vou deixar que a tua linha se desembarace pacificamente da minha e siga o seu caminho nesta folha de papel.
"They'll give us something,
They'll give us so much to forget"
Há, no entanto, uma ou outra que arrisca tocar com todas as suas forças esta linha. Todas elas vão sendo impelidas para bem longe, nunca chegando a fundir-se uma vez que seja comigo.
Porém, há uma recente excepção que levanta questões e abala alicerces. Talvez esta linha já não esteja tão recta como eu julgava - se calhar isso não é uma coisa má. Se calhar, a pouco e pouco, vou absorvendo, num processo simbiótico, outra linha em mim. Se calhar, estou também a dar uma parte de mim, parte essa que nunca mais vou conhecer ou afagar com a ponta dos meus dedos.
O processo dói. Às vezes, dá vontade de acabar directamente com a minha linha - e, indirectamente, com a tua. Mas sempre gostei de causar o menor sofrimento possível, visto que o mal é meu. Vou deixar que a tua linha se desembarace pacificamente da minha e siga o seu caminho nesta folha de papel.
"They'll give us something,
They'll give us so much to forget"
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Fora não, acima!
Estou fora deste mundo. Deslizo, leve, livre e lento, acima das nuvens delicadas e rugosas; acima das rodas que rangem e rodam, em conflito contínuo umas com as outras.
Nada me perturba. Nem mesmo o facto de não saber se voltarei a encontrar o caminho para tamanho voo, nem sequer o facto de não saber quanto tempo me conseguirei aguentar até que me falte o fôlego - até que as asas cedam fatalmente ao marasmo da multidão.
Nada me perturba. Nem mesmo o facto de não saber se voltarei a encontrar o caminho para tamanho voo, nem sequer o facto de não saber quanto tempo me conseguirei aguentar até que me falte o fôlego - até que as asas cedam fatalmente ao marasmo da multidão.
domingo, 30 de janeiro de 2011
O daltónico e as cores
Não sei escrever. O papel que uso fica colorido, mas nunca com as cores que quero. É como se o arco-íris apenas me emprestasse as menos valiosas. A caneta, a dada altura, teima em afrouxar e deixar de brotar a cópia de emoções que lhe peço e sempre pedi - por favor.
As correntes iludem-me e empurram-me sempre para a mesma zona de corais fáceis e banais que toda a gente conhece, como se não existisse mais nada para ser visto. O mundo transforma-se numa pequena bola cujos recantos me fartam, me enchem de tédio, me fazem sentir incompleto.
Recuso-me a acreditar que a adrenalina da novidade chegou ao fim. Tem de haver algo mais imerso nas minhas marés - tem de haver algo mais para saír como truque de magia pelo bico ordinário da caneta. Se assim não for, como hei-de respirar? O ar não me chega, monótona e estável mistura de gases.
Ainda espero que a caneta se aventure noutras correntes, não sei se por experiência se por acaso. Não tenho medo de me perder quando ela colocar em risco os meus passos - o meu corpo vale menos do que o perigo. A única coisa de valor são as cores com que pude pintar a minha alma.
As correntes iludem-me e empurram-me sempre para a mesma zona de corais fáceis e banais que toda a gente conhece, como se não existisse mais nada para ser visto. O mundo transforma-se numa pequena bola cujos recantos me fartam, me enchem de tédio, me fazem sentir incompleto.
Recuso-me a acreditar que a adrenalina da novidade chegou ao fim. Tem de haver algo mais imerso nas minhas marés - tem de haver algo mais para saír como truque de magia pelo bico ordinário da caneta. Se assim não for, como hei-de respirar? O ar não me chega, monótona e estável mistura de gases.
Ainda espero que a caneta se aventure noutras correntes, não sei se por experiência se por acaso. Não tenho medo de me perder quando ela colocar em risco os meus passos - o meu corpo vale menos do que o perigo. A única coisa de valor são as cores com que pude pintar a minha alma.
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Manchas
Manchas. Escuras, claras, grandes, pequenas. Cor psicológica, talvez? Representação mental? Sem dúvida. São invisíveis, mas conseguimos senti-las, ainda frescas.
Podemos continuar a escondê-las, a guardá-las seguras do mundo, com medo que contaminem todos os outros.
Enquanto isso, elas criam raízes mesquinhas nos nossos corpos fracos, fazem deles marionetas de madeira rachada e podre. As fragilidades fazem-nos caír em slow motion no alcatrão, prontos a ser atropelados violentamente por quem mais anda na estrada.
Sim, a cura existe. Não desperdiçar as munições contadas a fazer rolar pelo chão faces redondas e quadradas - brancas mas não da base, vermelhas mas não do batom. Cruel fim, o dessas faces. Só queriam ajudar...e nós só as quisemos proteger, bem sei.
Um dia descobrimos que é tarde. Descobrimos que abraçar um morto é o mesmo que abraçar um desconhecido - nenhum deles está lá para cicatrizar as feridas e secar as manchas com o seu casaco tépido e fofo.
Podemos continuar a escondê-las, a guardá-las seguras do mundo, com medo que contaminem todos os outros.
Enquanto isso, elas criam raízes mesquinhas nos nossos corpos fracos, fazem deles marionetas de madeira rachada e podre. As fragilidades fazem-nos caír em slow motion no alcatrão, prontos a ser atropelados violentamente por quem mais anda na estrada.
Sim, a cura existe. Não desperdiçar as munições contadas a fazer rolar pelo chão faces redondas e quadradas - brancas mas não da base, vermelhas mas não do batom. Cruel fim, o dessas faces. Só queriam ajudar...e nós só as quisemos proteger, bem sei.
Um dia descobrimos que é tarde. Descobrimos que abraçar um morto é o mesmo que abraçar um desconhecido - nenhum deles está lá para cicatrizar as feridas e secar as manchas com o seu casaco tépido e fofo.
sábado, 16 de outubro de 2010
Cacofonia escrita
Cerro os dentes outra vez. Voltou aquele zumbido agonizante, aquela tortura mental em forma de voz estridente cor de rosa.
Tinha de ser cor de rosa. Odeio cor de rosa. Não podia ser preta, como a roupa dos góticos? Como as noites de desespero? Como as luzes que não me encontram?
Assim a dor não voltava - era contínua. O sangue iria jorrar muito lentamente dos pulsos cortados ; não de forma suficientemente lenta, ainda assim, para que a esperança o pudesse estancar.
E porque me segue em qualquer altura do ano? Não podia aparecer só no Outono e no Inverno? O vento gélido basta por si só para amedrontar qualquer vestígio de vitalidade, qualquer peito de flor inconsciente sem agasalho...
O gelo nem precisa de explicação em relação aos seus efeitos. Era bom se também pudesse congelar os sonhos por tempo indeterminado, de forma a que os recuperássemos intactos um dia, para os podermos cumprir e entregar as nossas cordas (cordas de marioneta) ao criador.
Mas nem isso nos dão. Nem os palermas dos sonhos se mantêm. Para quê lutar hoje pelo preto se amanhã serei a voz cor de rosa e estridente que tanto odeio?
Tinha de ser cor de rosa. Odeio cor de rosa. Não podia ser preta, como a roupa dos góticos? Como as noites de desespero? Como as luzes que não me encontram?
Assim a dor não voltava - era contínua. O sangue iria jorrar muito lentamente dos pulsos cortados ; não de forma suficientemente lenta, ainda assim, para que a esperança o pudesse estancar.
E porque me segue em qualquer altura do ano? Não podia aparecer só no Outono e no Inverno? O vento gélido basta por si só para amedrontar qualquer vestígio de vitalidade, qualquer peito de flor inconsciente sem agasalho...
O gelo nem precisa de explicação em relação aos seus efeitos. Era bom se também pudesse congelar os sonhos por tempo indeterminado, de forma a que os recuperássemos intactos um dia, para os podermos cumprir e entregar as nossas cordas (cordas de marioneta) ao criador.
Mas nem isso nos dão. Nem os palermas dos sonhos se mantêm. Para quê lutar hoje pelo preto se amanhã serei a voz cor de rosa e estridente que tanto odeio?
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Guarda-chuva
Tenho um guarda-chuva. Desses baratos, dos chineses, com as varetas tortas e o tecido furado.
Foi tudo o que me deram para me proteger das tempestades. Dos trovões que me perfuram o peito e deixam aquela sensação estranha de vazio, de revolta.
Um simples guarda chuva que abana, à beira do colapso, à menor insinuação do vento.
Os remendos não servem de nada. A cada dia que passa, enferrujam as varas, frágeis como paus secos; aparecem novos buracos no tecido.
O meu guarda chuva é mágico. Deixa entrar a chuva, mas não deixa que o sol ilumine a minha face pálida. O meu guarda chuva é tão grande que não deixa que ninguém caminhe ao meu lado, ao longo dos passeios intermináveis. O meu guarda-chuva é a minha única companhia.
E se eu não precisar dele para nada? E se eu precisar de ficar ensopado até aos ossos?
Odeio-o. Mas é tão difícil dizer adeus ao frágil guarda-chuva dos chineses...
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Obstáculo
Empurra-me a força da aragem
Atira-me areia para a vista
Que impede a minha passagem
Por mais que eu insista
Não deixa que me perca
Que siga a fragância do perigo
Meu único e fiel abrigo!
Faz de mim duna de areia
Fragmentos de uma vida
Que breve serão arrastados
Por água de maré cheia!
Não consigo estender o braço
Para me salvares do cansaço
Das viagens nos escombros
Das saudades do teu regaço
Será que chegou o adeus?
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