quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Tea thesis

I'm not an easy-talking person. I know it. Even I feel comfortable with silence, I used to talk and joke around just to make people notice me. A stupid way of doing so, since I know several quiet people whose absence is felt. And I can't deal with people that don't care a little bit. It's called self love, perhaps? Extra sensibility? Thanks mother nature, for making me so well equiped.

I selected one or two folks - not the best matches, but those who can hear me. And that understand. And I end up understanding them to. And helping. And changing my plans, not easy for me to do. Getting less shallow and moving on.

Today I'm not that "I don't need it" Ed. Today I need to talk. I don't need to directly talk to someone. I never needed. I just need to make it flow, to drop the bomb. It doesn't mean the bomb has to kill people; maybe I just need to talk, without a particular aim. I just need to fill the time between the sips of hot lemon tea, is it true? I don't usually have hot drinks, but I am sick. My nose is sick, my throat is sick, my head is sick, my stomach is sick. I could go and play guitar. Or bass. Or play Sims. Or make myself busy searching for stuff for sale online - et voilá, consumption happiness that lasts 5 minuts. I could also study. Study stuff that my teachers would want me to. For my own good.

And I thank them, because this is my problem. I can do so much. Too much - I end up doing nothing. A bit here, a bit there. It's like building a house, but only working on Sundays. Or holidays. A brick here, bit of cement there. "It's built" - like Housemartins said? No, it's not.

Then, there is time. It keeps on floating. Floating is the best word, because that's all that time insists to do with me. Plus, it's in a hurry. I can barely stand its pace. And I can't certainly predict it. I have to wait for time to arrive - do I? But time doesn't need to wait for me. That's unfair.

Why is that unfair? Why should it be? We created the concept of time. Nature created the concept of cycle. We played the trick and it turned against us. I mean, we would die anyway, but with less contemplations. With less fears, perhaps? I bet the human being can always find something.

I could go on. But I'm entering a dangerous field. I'm not even certain that we created the concept of time. Or if we can distinguish it that easily from the concept of cycle. We can feel both, perhaps? We can feel what our language makes us feel. I think I'm not prepared for this and I probably didn't deliver great news or great knowledge. I'm too young - now THAT has to do with time. I'm not skilled, I'm not powerful. I'm just an observer that is slowly trying to fit.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Paz


Gentis carícias do conforto do não sentir, da segurança da distância que entorpece e que clarifica mantêm a alma tépida e placidamente tranquila.

A noite não cai sobre os ombros como fardo pesado de saudade e de vício; isso fica para almas mundanas comuns. A noite é o vento e o vento é a noite que empurra todas as peças que não encaixam, as peças que foram forçadas e que magoaram sem proveito.

As memórias não congelam, mas espreitam por trás do cortinado espesso das portadas que cobrem os olhos, demasiado dispersas para se tornarem inconvenientemente em pânico, medo ou falta.

Sinto que não me sinto, sinto uma casa de trancas fortes, fria e insípida como uma salada por temperar que me irá manter saudável o corpo, vegetante a alma. Até que novamente as trancas, fortes por pura ilusão, sejam forçadas novamente e o sangue volte a produzir a sonora cascata latejante do costume.



Quando isso acontecer, "help me to make it". It's a "consequence of what you do to me".

terça-feira, 17 de julho de 2012

S

O cabelo dela era como um bilião de círculos de negra sumptuosidade que se entrecruzam entre si. Despreocupada sumptuosidade, à espera que a pálpebra se abra para que o olho a procure.

O estímulo demora, habilmente escondido na monotonia do ter e nas brincadeiras para adultos que se marcam nessa agenda mortal, ainda que aparentemente infinita. Demora, como uma hora ou como um mês, como um canto de ave ou como as fases de crescimento de um fruto humano.

As nossas preces nascem dele, o suspirar de cada dia o seu sintoma. O relógio de parede que fez súbita amizade com o antiquário de memórias e fotografias antigas atraiçoa o fluir ingénuo e indolor do tempo. Trava-o com constantes paragens, constantes análises que nos levam a outro tipo de ilusão, outro tipo de objectivo: não o da concretização do mesmo, mas o da importância do ser e da dimensão da carne, do sangue, dos ossos.

Tudo isto despoletado por geometricamente banais círculos.

sábado, 16 de junho de 2012

Vaguear

Os cinzeiros estão cheios, o chão à espera de ser varrido pelo empregado sonolento, de honesta má disposição que apenas quer fechar o estabelecimento. As cervejas fazem linhas que se entrecruzam nas mesas, todas iguais, simbolizando um tipo qualquer de ocupação do tempo ou de elevação artificial do espírito para as massas.

Pela rua, sigo as pedras de calçadas, conto-as e reparo num passar do tempo diferente, num tempo que me absorve a consciência, a vaguidão da vida. As passas do cigarro marcam o ritmo, o brilho laranja de cada travo a luz do caminho; o fumo, como migalhas de Hansel e Gretel - sigam a vida citadina e cheia de modas.

Rangem as solas das all-star que ninguém vê no escuro, à medida que palmilham um caminho falsamente certo, mas que não leva a lado nenhum. Tudo é passeio, tudo é fogo de artifício que ilude os meus olhos vermelhos de ser ébrio, as minhas pestanas coladas de quem chorou as certezas que julgou ter na monotonia de um ciclo.

Sente-se na noite o ar vago, a luz difusa, a rua deserta. Assim que estou sozinho, é assim que me sinto: pele e roupa, frágil, engolida pela mesma esfera de sempre, que mete medo, que mete desespero. Acende-se mais um cigarro até ao conforto de um lar que não me espera mais a mim do que a qualquer homem perdido, animalesco, moribundo.


terça-feira, 12 de junho de 2012

Cup of coffee

A cup of coffee won't solve, for my problem isn't the tired eye or the head that pulses like the drums of the songs passing by. No. A mess like this isn't solved with a simple, ordinary coffee. Coffee is an excuse for extra determination, an illusional pause. Just like a cigarette or a walk or a chocolate cookie. A placebo effect. The wind outside comes into my mind and becomes far more important than the thoughts I was having before. It got control, it took over the situation, it made me get lost. More lost. Again. And again, and again. No GPS would help, because I know which routes I can use, I know exactly where I am. It doesn't drive for me, it won't do the unstuck. And minutes tickle, cry where they used to sing. It's a great cliché to say that the same thing can be devastatingly beautiful or horrid ugliness depending on its intensity. And still, that's why I can hate me. I can hate us. I can hate you. A caress, a word, is like an input: it needs processing. It needs loading. It will begin a war, a war which devastation isn't seen but felt. No wrecked building. No crying people. I don't cry. I barely complain. That's why I hate me. That's why I hate people. I hate me because people hate me and they hate me because I don't look alike. I don't fit. I don't match. I have to hear and I won't react. It's easier to make sense with small sentences. The words won't lose grip, the fingers jump from key to key as if they already had this speech in mind. Obviously, it isn't a speech. I can't speak. That's what people say, that's what people think. I'm the guilty, I am the crippled. I'm am the one who has to listen but won't ever feel like anyone listens to him. Well, being a bit unfair now. It seems I have my concentration back. Solved it isn't, but it wasn't meant to be. Flaws are everywhere and if I was the only one the world would be perfect. And it is. There comes the wind again...hope it doesn't vanish. This stream, cascade, huge word-puking, of words that are barely analized.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

For good

"And I...would never hate you...but you're hard to love". And when I mean love, I meant friendship. You want it all for you and you can't accept that people are changing and making new connections. You can't accept that now I won't be the grammar nazi that is going backwards to see if he mispelled something. I won't go back to see what failed, because nothing failed. This was a natural process - people, like the seasons, come and go. You're a rotten apple, waiting for the tree to pick you up again. Rotten inside, because you thought I didn't care anymore. It's just that, like a tree, I'm too stiff, too inflexible (fuck collocations). I can't go and talk to you, because I didn't do anything wrong. I'm a better person, but still I can't talk. I will grow other apples, you'll be consumed by the dust and the wind and I'll just watch silently and sad. If you'd just think twice...you'd see I was always there. I never treat you wrong. I tried, but I couldn't reach your point. Even I am nonsense. You shouldn't try to explain things with lies. Goodbye.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Nonsense

Longe passou o inverno subtil das roupas quentes e pausado na descoberta. Quase chega o Verão, de corpos desnudos, é certo, mas que escorrem suor ordinário sob a pele que agora se vê manchada dos tecidos e vasos e sangue e células da vida. Afastamo-nos do olfacto peculiar das roupas coladas ao suor e ao corpo e ao ar fervente e urgente. Aparecem a acenar, como em hipopótamos que sobem civilizadas calçadas de verão, pernas que colossalmente tremem do impacto no chão, furadas da casca de laranja que não escapa à sociedade contemporânea. Tremem as t-shirts de marca, as t-shirts sem marca e as t-shirts marcadas pelo suor, pelos logotipos, pelo decote em V ou em Z. Marcam-se as barrigas - queiramos olhar - em peças que esvoaçam a lata e o bem estar, a tentativa de não conter o medo da rejeição, da coca-cola e croissant au chocolat despachados na maior segurança do "eu quero, posso e mando" que facilmente se transforma em subserviência servil aos desejos da alma e dos outros. Não fazer sentido, fazer calor, as árvores choram pólens que me afectam o cérebro, a escrita e a pontuação. Regressa assim o calor deste blog.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Skin thief

Long bloody war shall we fight in the strong airs of the sea, the land of the adventurous, of the power, of the virility!

Shall I bomb your nasty lack of courage with my love for the lady, thus you'll be left in the loser's side. Shall I forget the honour you stole her, shall I forget the hatred for the mundane flesh, whose soul sometimes likes to caress others than the prisioner of her heart.

No, it's not jealousy, it's the will to fight the enemy and to earn the crown. Everybody settles for the master, for the strenght, for the wisdom, though shall it not be enough to contain the weakness of the skin.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Fera

Let the cold of the icelands take the kingdom of your heart and rip the mercy that runs through your veins.

Fear for no one, feel no guilt because you're just a worthy knight of the human race - a relentless hollow animal. The wounds are just to the flesh, your sacrifice only for power, glory, revenge!

Let no one win you, let no one live with unscathed honor after tearing down your will and your fate - to be the ruler of your desires, of your sin-soothing steps.


domingo, 22 de janeiro de 2012

Maybe not. Maybe yes. I can't decide, ever.

How I wanted to be the pages of your diary, so I could inhale the smoky thoughts of your tough little mind. How I'd like to go from page to page and to go back again, to link all the ink and to know you to the bones.

No. I'd like to know no words. I don't want the bullshit, just the medicine to the pain, the arrow to the heart. Understanding, silly concept. It must be wrong.

How can I possibly want to find the under-sea treasures of your waters if I can't even sink in mine without drowning?

Mend it for me, paper. Mend it. I'll try once again. I may change the ink, I may move on some pages. I'll fail again, I'll smudge all the history like I always do. But please,mend it.

Future reflections

If I can't make a worm into a butterfly while my mind stretches itself along the inked fingers, if I can only describe what I see and all I see are worms...

...I'll just lie to the world and give myself two wings. I'll paint the skies that I see, the fear of the nature, the hiding in the tree trunks, the lonely float in the air which never seems to have a compass or a speedometer.

I won't be a worm anymore, a worm of the ground. I'll discover what nobody else does, feel and think of the world with my eyes so open that the truth will make me blind. I'll even lose my interest in the cycles of this sphere. I'll die soon, just like a mainstream pop song, but after the glory of entertaining people for some days with my fake beauty.

Fair enough. Finally got it.

domingo, 15 de janeiro de 2012

I apologize.

"It's just a case of all the suffering..."

Aqui jaz uma alma, quebrada, machucada, enfurecida pela sua própria insegurança, pelo frio dos lençóis que apenas cobrem o corpo.

"On the wings of the night..."

Mal se consegue concentrar na sua própria dor ao imaginar a da sua metade, distante dos sentidos mas não da memória.

"On the turning away..."

Por muito que me ouças dizer que nunca me arrependo de nada, é mentira. Não posso trazer os calhaus que atirei contra o nosso amor de vidro de volta para a minha mão, não posso voltar a estender à tua mão o cobertor de afecto que antes nos envolvia no frio da solidão.

Sempre me disseram que ser orgulhoso era ser forte e ter carácter, mas apenas me congela mais no frio da noite. Orgulhosamente estúpido, orgulhosamente magoado pela mágoa que infligi a quem merecia apenas um beijo, o salvar da noite, das vidas.

Lamento que tenha de ser assim. Lamento. "There was a boy...". There was.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

More than this...

Because I’m always the man who finds problems where they don’t exist.

Because I’m afraid of the beach because of the sand, afraid of the fire because of the heat, scared of you because of the love. Because the blood that runs fast through my veins is always impure, my thoughts always cold yet not clear as water.

I don’t know what is stronger: my need to dive into the ocean of perdition and loneliness or my will to rest my hand over your warm skin, door to the soul. I don’t know whether it is my fault, yours or the devil’s. I don’t know if it could be better, if more than this is there something.

May life forgive my cyclic waste of time. I just don’t know (but something answered):


terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Náusea

Farto dos telefones, das internetes voláteis e das cartas instantâneas, efémeras e confusas.

A única rede em que confio é a dos meus dedos nos teus, a única comunicação que aceito é a da tua íris em frente à minha, como que num duelo de palavras. Palavras ou emoções
Tudo o que sei é que isto me provoca náusea. Náusea de não te ter, náusea de não poder puxar as rédeas que te dominam como cavalo amansado, náusea por saber que não o devo fazer. Náusea não do estômago, mas por não saber digerir o teu reino para além dos nossos portões. Náusea, pelo hábito de ser contadino pobre, sem terras nem posses que não o seu coração esfiapado e cobertores de inverno.

Se as rédeas não estivessem lá, nunca as teria de puxar. Se não tivesse vez alguma visto os portões, nunca teria imaginado um reino para lá da aldeia de pobres cabanas que partilho com outras almas unas. Não teria medo dos banquetes de luxúria que lá se passam, das fofoquices que reinam na côrte real. A náusea não cobriria a minha alma nema minha boca, que para cima de ti vomita a arrogância banhada em insegurança, as balas que escondem os buracos, as flechas saídas de onde em mim abriram feridas.

O fluxo é tal que nem estas palavras fazem sentido. Nem o conforto de uma lareira acesa e de um chá de frutos vermelhos quente acalma este cavaleiro e o impede de se imiscuir num mundo tão difícil e quase medieval, em que mais do que as saudades, surge o medo, o deixar fugir da presa, não mais sob mira óptica.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Unsettlement

No, no, I don't feel safe.

I feel like a cold drop of rain swallowed by the autumn morbid light, caressing windows' glasses with no concrete direction.

I feel like ending in a gutter, still waiting for some divine direction, some wind to push me out of this despair.

I could take it before: it was called aventure. Not knowing where to go, not having any conscious outlined road, what a dream. Now, I just wanted the road to be straightforward, with silky pavement and smooth corners.

What you give me are nothing but potholes and worn-out tar, no smoothness but punctures in the soul.

You'd better reassure my senses and keep my heart calm and warm, make it trust the light you once gave it again. You'd better turn out to be a better ride. I'd had enough unsettlement.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Folhas

Fria, a rua camuflada por folhas laranja e amarelo outonal. Frio, o meu coração exangue sempre que mais folhas brotam naturalmente dos ramos, seguindo o seu rumo natural.

Porque não as deixar brotar? Porquê travar as chuvas pontuais, a incontinência propositada das nuvens?

Neste mundo de círculos viçosos e viciosos, para quê a ilusão do controlo do que tem vida própria? Porquê o desconforto de besta egocêntrica que quer as marés a seu gosto?

Acalma-me o abraço da brisa, quando me acaricia suavemente, antes de voltar a roncar com todo o furor. Deixa-me só e susceptível a indiferença e a distância do ronco perante os meus desejos.

No entanto, não é por eu saber que as folhas caem naturalmente que fico contente quando as vejo mergulhar num mecanismo de morte colectiva.

Um dia farei o mesmo. Um dia caio como todas as outras folhas, sem que isso apazigue a culpa.

sábado, 26 de novembro de 2011

Guerra

Fiz o que o meu servo me pediu.

Em movimentos de descontida agitação estraçalhei o escudo baço que me era alheio, agarrei nas suas odiosas entranhas e tentei rasgá-las como t-shirt dos chineses, de fibra frágil e contrabandeada.

Com farpas de borbulhante raiva lhe atirei, afiadas e certeiras no seu sangue negro e pulsante.

Como guerreiro cansado, arfei para fora do campo de batalha, feliz por ter cumprido a minha obrigação militar, social e familiar.

Ouvi dizer, no entanto, que hoje em dia já não se usam farpas de genuína raiva; antes granadas de cinismo calculista bem aceite, porque as primeiras têm contra-indicações graves nas vítimas - coitadas, sempre as vítimas.

As batalhas já não são o que eram. O pó já não levanta por sobre os vultos caídos - levanta sobre nós, cavaleiros dignos que suam, sangram e sofrem por uma causa indecente. Empurra-nos para a prisão da vitória sangrenta.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Fumo

Inspira forte. O fumo entra em formato de cornucópia pelas narinas feridas do frio. O cérebro engasga-se com a nuvem densa que atordoa também os sentidos.

O fumo não é físico, visível e de odor palpável; não. É visceral, possui o corpo e atira-o para o desespero. No turbilhão de cinzas está envolto, de forma confusa, o pior de nós. Está o abismo do não ter, do não controlar (por não ver).

O fumo é uma obcessão. É difícil impedir que se imiscua dentro de nós, dado que para tal teríamos de parar de respirar - e de repousar eternamente na valeta, esperando pela degradação em pó.

Assim, o fumo faz parte da condição humana de alguns. Viver é sentir o fumo, umas vezes mais fraco, outras vezes mais opaco e negro, queimando a memória alegre e conservadora do eu e da espécie. Sentir o fumo, arder por dentro e chegar ao cúmulo de deixar as labaredas saír, é o que nos distingue de um calhão inerte.

domingo, 20 de novembro de 2011

Corpo-fobia

As luzes, difusas e desfalcadas de vida, pouco deixavam ver senão contornos imperceptíveis. Não era mau que assim fosse - às vezes, vaguear sem consciência ocular é muito menos doloroso. O verdadeiro target point não era a essência, mas sim o formato do frasco que a guardava e que a impedia de sair.

Mas um dia saiu. Um dia, o frasco baço quebrou-se, por culpa do relâmpago de luz que sobre ele abateu. A luz trouxe algo de inesperado: um ogre, de um verde cansado, olhos retraídos nas suas grutas de conforto, dentes pontiagudos a proteger o lábio inferior. A baba escorria, as rugas na testa hedionda eram visíveis parcamente, por trás do pouco cabelo oleoso e sujo que se colava.

Não se sabe como não partiu o espelho à sua frente, na sala. Não se sabe que caminho foi o seu para chegar ali, ao dia da confrontação. Feio seria, mas não cego. Voltou-se em pânico - outro espelho. Quanto mais rodava sobre as patas descalças de unhas retorcidas, mais outro, outro e outro. Nenhuma porta de saída que se visse. Eram 1001 ogres num pranto acriançado, ampliados e tornados ainda mais feios. A baba salpicava o chão espelhado, o tecto era também de um vidro claustrofóbico.

O motivo para estar ali sozinho era óbvio - era demasiado deplorável para poder viver com os outros ogres. Com os outros ogres de cabelo oleoso e sujo, de rugas na testa e olhos encovados. De dentes espetados. De tudo o que tinha o ogre triste, só não tinham a consciência da imperfeição. Não foram os outros ogres a trancar-lhe a porta de saída, fora a sua própria mente e a sua visão doente - disformes os olhos, não o corpo.

As luzes apagaram-se novamente (não que alguma vez tivessem estado verdadeiramente acesas, vislumbra-se o corpo mas não a mente). A cama acordou suada, envolvida pelos lençóis arrepiados do pesadelo que acabavam de presenciar.

E se esse pesadelo fosse a eternidade de alguém? Pobre ogre.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Egoísmo

Há-de sempre chegar o dia. O dia em que as planícies se deixam revolver pelos ventos inseguros, o dia em que o mar trepa de vez o cais outrora lânguido e proveitoso.

No fundo, todos os peões insignificantes deste mundo têm escondida pela roupa bem-cheirosa das regras e costumes sociais a faculdade de incharem como peixe-balão e deixarem a vista turvar-se perante a confiança nas sortes.

Podemos muito bem seguir sem esforço pela faixa apreciável da direita, deixar-mo-nos rolar pelos melhores momentos, até que sem que nada apareça à frente, guinamos subitamente rumo ao acidente. Pergunto-me até que ponto não é esse o nosso modo natural de ser, disfarçado pela convivência ética. Pergunto-me até que ponto valerá a pena nos perdoarmos uns aos outros por algo tão desastroso - mas natural.

Os nossos olhos não são uma força, apenas um indicador de fraqueza - conseguem ver os outros, mas não olhá-los. Fazem de nós irascíveis bestas desconfiadas, crentes convictas apenas do egocentrismo. Disso sim, tenho pena, mas nada mais posso fazer a não ser um inócuo pedido de desculpas e seguir em frente, com mais uns estilhaços a aparecerem no espelho que condensa as frias lágrimas do falhanço.